Só existem dois modos de estar no mundo. Ou se vive no amor, ou seja, na busca permanente da comunhão com os outros ou se vive no egoísmo, fazendo das pessoas instrumentos, meios para a satisfação dos próprios interesses. Os que professam a fé no Deus Uno e Trino estão convencidos de que as pessoas só são pessoas de verdade quando fazem sempre intensa comunhão com os outros.
Deus é Três em Um só ou Um só em Três. Três pessoas, realmente distintas, na infinita comunhão de uma só natureza. Pessoa em Deus, ensina-nos a tradição cristã, é relação amorosa, de modo que as pessoas subsistem voltadas umas para as outras com a totalidade do próprio ser. Nada é de uma pessoa que não seja ao mesmo tempo da outra. A essa compreensão a tradição teológica chamou, em grego, de pericorese – e em latim, circuminsessão. A doação recíproca das pessoas faz com que cada pessoa esteja inteira na outra e se desfrutem uma da outra em eterna alegria. É próprio de todas as religiões ter um referencial transcendente e intocável, fonte e modelo de toda a realidade. O Deus Trindade é, no cristianismo, a origem de todas as coisas e o modelo, a causa exemplar, de todo o criado. Jesus afirmou: “Eu e o Pai somos Um”. E orou e deu a vida para que a humanidade pudesse espelhar em sua convivência o mistério de sua comunhão com o Pai no Espírito Santo: “Pai, que eles sejam Um como eu e tu somos Um e assim o mundo creia que me enviaste.” A experiência de Deus, no cristianismo, inspira um tipo de sociedade onde a realização do indivíduo-pessoa consiste precisamente nisto: viver um permanente processo de interação amorosa com os outros. A pessoa não é solidão, uma mônada isolada, mas é dinamismo de comunhão. Na relação reside a experiência da identidade, a alegria de ser alguém. “É dando que se recebe”. Ou a pessoa se volta para o outro em atitude de oferecimento ou ela está fadada irremediavelmente ao fracasso. A verdade de Deus – Uno e Trino – revela-nos nossa própria verdade. Ou vivemos em comunidade, em clima de participação amorosa e serviçal, ou seremos infelizes. Mesmo que muitos não o desejem, aqueles que experimentaram de verdade o Deus de Jesus Cristo estarão sempre buscando a comunhão com os outros até a morte, como Jesus mesmo o fez, como o testemunham suas palavras: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”. O testemunho de comunhão é sinal distintivo do discípulo de Jesus. Por isso nos ensinou João Paulo II: “fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milênio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo”.( n. 43).Ora, nosso mundo oscilou, no século passado, entre um individualismo exacerbado e um coletivismo sufocante. O individualismo egoísta se consolidou de forma cruel no capitalismo “selvagem”. A reação ao capitalismo foi a tentativa de impor, à força, um sistema de igualdade, como se as estruturas pudessem dar a vida. Hoje prevalece o individualismo cego que produz uma imensa e impiedosa exclusão. O cristianismo não propõe uma terceira via, ele propõe a via do amor, da solidariedade, assumida na convivência social, único jeito de dar vida às leis justas. Aqui e acolá ouço, quando me refiro a essa via, pessoas dizerem ser ingenuidade. O ponto de partida, entretanto, da construção social não pode ser o adágio “hobbiano”: “o homem é lobo para outro homem”. Os cristãos apostam na via do amor porque crêem que Deus não abandonou a humanidade, pelo contrário, veio a seu encontro em Cristo e pelo Espírito a conduz pelas vias do amor. Jesus nos enviou como cordeiros para o meio de lobos. Ele mesmo, o Cordeiro de Deus, ofereceu sua vida para que todos se tornassem cordeiros, amigos uns dos outros. Esta verdade obriga-nos – ó feliz dever! -, a nós cristãos, a apostar no diálogo e na cooperação como método e como realização dos ideais de justiça e de paz social. O bem não se impõe, propõe-se, em contexto de testemunho. Bento XVI ensinou-nos que não se evangeliza por proselitismo, mas por atração. A persistência no caminho do diálogo e do serviço desinteressado é que convence e multiplica os obreiros da justiça e da paz. Traem sua fé os cristãos que dizem acreditar na proposta do evangelho e se recusam a vivê-lo no terreno da política e no interior das instituições sociais. O que todos nós esperamos, e devemos agir em conseqüência, é que todas as instituições sociais, sobretudo as explicitamente educacionais, não só se estruturem para a comunhão, mas funcionem, pela adesão convicta das pessoas, em clima de diálogo e participação, motivadas pela sincera busca do bem de todos. Esse caminho exige conversão permanente. As tendências egoísticas e a volúpia do poder constituem para todos nós uma tentação permanente. È preciso acreditar no outro. O outro pode mudar. Mas para acreditar que o outro pode mudar, é preciso que eu mesmo tenha feito a experiência da mudança, pois o outro, eu o vejo com os meus olhos. Esse caminho não é tão rápido como o caminho das decisões não participadas, por ele o processo é mais lento, mas é o único caminho que, de fato, leva à construção da comunidade humana.
*Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues, 66 anos, é arcebispo de Sorocaba (SP)
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