No Evangelho de São Lucas (2,51) há uma frase de extraordinária riqueza e importância. Ela se refere à Família: "Era-lhes submisso". O Filho de Deus dá um exemplo perene, até o final dos séculos a todas as gerações e que deve ser meditado por pais e filhos, de modo particular nos dias atuais. Ao pai adotivo e a Maria, "Mãe de Jesus" como relatam as Sagradas Escrituras, Ele era obediente. Na crise atual, o cumprimento do dever que cabe aos genitores e, em particular, o tipo de relacionamento com a prole, está na raiz de todos os problemas domésticos.
Em sua "Carta à Família" (nº 17) o Papa João Paulo II recorda ser ela "uma instituição fundamental para a vida de cada sociedade". O casamento é seu alicerce. Ele é, conforme o "Catecismo da Igreja Católica" (nº 1601) e o Código do Direito Canônico (cânon 1055), "a aliança matrimonial pela qual o homem e a mulher constituem entre si uma comunhão de vida toda. Essa visão cristã evidentemente inclui os valores religiosos que são elementos vitais na preservação do casamento e na educação dos filhos. Quando se debilita o relacionamento de marido e mulher e falha a educação dos filhos e a adequada orientação da prole, em face dos problemas que surgem, acende-se o sinal vermelho, pois está em perigo o bem-estar espiritual e temporal de um lar.
Uma outra visão, a sociológica, inteiramente à margem do Evangelho, domina o panorama em que vive a Humanidade em nossos dias.
Em conseqüência, a situação da Família é fruto, em parte, de uma confusão entre indivíduo e pessoa humana, criada à imagem de Deus, igualdade e identidade, liberdade e licenciosidade, prazer e felicidade. São questões fundamentais. Na Exortação Apostólica "Familiaris Consortio" (nº 8) o Santo Padre João Paulo II nos alerta: "A nova compreensão do sentido último da vida e dos valores fundamentais é a grande tarefa que se impõe, hoje, para a renovação da sociedade". E na Carta Encíclica "Fides et Ratio" (nº 90): "Uma vez que se privou o homem da verdade, é pura ilusão pretender torná-lo livre. Verdade e liberdade, com efeito, ou caminham juntas, ou juntas miseravelmente perecem".
Em um clima onde se exclui uma verdade objetiva, que é substituída pelo subjetivismo, dá-se a primazia ao bem-estar do indivíduo, sobre a prioridade da família, fundamental célula à sociedade e ficam profundamente comprometidas a estabilidade e a missão de um lar. A derrocada da verdadeira função dos genitores na educação dos filhos é fator importante nos males que nos afligem.Um deles é a demissão do papel dos pais em face da prole. Passou-se hoje de um extremo ao outro, ambos perniciosos para o bem do lar. Longe de um autoritarismo duro, egoísta, longe do amor no lar vê-se, em nossos dias, a vitória do companheirismo. São colegas e o pai desce ao nível de quem necessita de ajuda, do auxílio, para superar a fragilidade principalmente em uma fase da existência, a puberdade. Ser amigo dos filhos não é ser um simples colega. Aí se coloca a necessidade premente, em nossa época, do amor que mantém viva a união tanto entre os cônjuges como destes com a prole. Não se consegue a sobrevivência sem o cultivo desse relacionamento e a busca sincera da correção de rotas desde o início do desvio, fruto da própria fraqueza humana.
Evidentemente, o fator religioso é fundamental para o êxito e o fortalecimento da Família. E mesmo quando não está acesa a luz da Fé cristã, o simples bom senso nos diz que é importante para todos, em uma Família, a prática de princípios e valores decorrentes da própria lei natural. Impõe-se a edificação de um futuro, desde o noivado, alicerçado em uma perspectiva de vida digna do homem e não assemelhado ao animal irracional. Jamais deixar de construir e fortificar o seu lar. Numerosas atitudes são obviamente essenciais e nem sempre é fácil a convivência entre pessoas que gozam de liberdade e podem ter gostos diferentes. O simples bom senso nos diz que é necessário trabalhar pela concórdia e assumir, em conjunto, a responsabilidade pela sobrevivência da sociedade doméstica. Assim, quanto à educação dos filhos, o dever dos pais não pode simplesmente ser delegado à escola ou a um dos cônjuges.
A atividade pastoral nos ensina quanto é difícil essa tarefa. Em "Gaudium et Spes" (nº 47) lemos: "A salvação da pessoa e da sociedade humana está intimamente ligada ao bem estar da comunidade conjugal e familiar".Levou-me a fazer essas considerações sobre alguns aspectos da atual crise da Família, o fato de ter assistido recentemente a um programa de televisão sobre o assunto. Notei a ausência ou o desconhecimento do fator religioso, importante na solução dos problemas que afligem o Estado e a Igreja. Sem ele, a Educação Sexual se restringe a uma exposição verbal da sexualidade, em seus diversos aspectos. Poderia chamar-se de estímulo à prática do sexo, em vez de fortalecer o caráter, orientar a vontade pela observância dos princípios éticos. A grande dificuldade que se antepõe ao zelo dos genitores na educação da prole, é o clima permissivo reinante, estímulo às tendências que fomentam e deformam o caráter. A firmeza de manter o "não" é fundamental na formação dos filhos, em uma sociedade onde o desatino sexual não só é permitido, mas também incentivado pelos meios de comunicação social. Experimente verificar em nossos jornais as páginas semanais dedicadas à Família. João Paulo II, no final de sua "Carta às Famílias" (nº 23) assim exorta: "Através da família passa a história do homem, a história da salvação da Humanidade. Procurei mostrar nestas páginas como a família se acha no centro do grande combate entre o Bem e o Mal, entre a vida e a morte, entre o amor e quanto a este se opõe". Que Deus nos ajude
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